terça-feira, 20 de março de 2012

Liga Portuguesa de Futebol Profissional – alargamento da Liga Zon Sagres e Liga Orangina



Depois das notícias de ontem, decidi escrever a minha opinião sobre um assunto que poderá ter muito mais influência no nosso país do que um mísero Campeonato de Futebol.

Primeiramente, o alargamento do número de equipas vem de encontro a que estudo? Que método se utilizou para averiguar se era mais rentável e competitivo o campeonato com mais equipas? No que se pensou, para prever que o campeonato com mais equipas seria mais dinâmico? O porquê da alteração das normas, com entrada das novas directrizes, no campeonato que já está a acabar?

Pois bem, tudo isto tem duas justificações: a primeira, é a mais recorrente no nosso país, e advém das promessas eleitorais que os presidentes fazem, Mário Figueiredo, advogado de profissão, prometeu aos clubes que haveria um alargamento da Liga Orangina e que não havia despromoções. Como é de conhecimento geral, a diferença entre a 1ª e 2ª liga para as outras competições, é que há contratos profissionais e semiprofissionais, e como é óbvio, nenhum dos clubes que se encontra neste regime, quer ficar sem os contratos, com a noção que poderia ser destruído todo o clube (como aconteceu em clubes como o Farense). Pois bem, este advogado, conseguiu apelar ao voto dos clubes de menor dimensão e ganhar assim as eleições, através de uma promessa que nada favorece a modalidade.
A segunda justificação que analiso, e para mim ainda mais grave, é a falta de conhecimento, e profissionalismo da maioria dos responsáveis desportivos profissionais, que estão à frente de grandes instituições, e que tem a possibilidade de gerir grandes fontes de receita, mas no entanto, não houve qualquer tipo de estudo relativo à preponderância do alargamento dos campeonatos. Faltam gestores do desporto, falta gente profissional, com conhecimento de causa em gerir clubes, associações e federações, em vez de indivíduos que mal sabem ler, como é caso de alguns directores de clubes. 

Enquanto a gestão for feita por ex-jogadores, por filhos e enteados, e por indivíduos com interesses alheios ao desporto, só teremos a competição a ficar com uma má imagem, e a perder qualidade.
Tudo isto, poderia ser uma mera contestação se não visse o problema com uma visão mais alargada. Vejamos de alguns pontos de vista, os problemas imediatos inerentes a este processo:

- As equipas que não estão a disputar lugares europeus, não têm que se preocupar mais com o campeonato, o que faz com que seja um campeonato irreal, sem interesse, e bastante fraudulento. Além disso, alterar as regras a meio do jogo, é no mínimo incorrecto;

- Objectivos da maioria das equipas das duas ligas, já está alcançado, e como tal, já não há nada por que competir.

 Se tivermos em perspectiva o futuro da competição há que ter em consideração:

- Com 18 clubes, a assistência média dos estádios, não chega aos 20%, com mais clubes, pior será. Ter clubes como a União de Leiria com 300 pessoas no estádio, Naval com números semelhantes, só diminui a competitividade e espectacularidade do campeonato. Haverá ainda maior discrepância entre as equipas, e para as equipas mais fortes, certas deslocações serão meros passeios;

- Num país com 10 milhões de habitantes, focalizados predominantemente na zona Litoral, aumentar o número de equipas, apenas fará com que se faça um campeonato nas grandes cidades (numa perspectiva futura, imagino 3 equipas do distrito de Braga (Gil Vicente, Braga e Vitória de Guimarães), 2 equipas de Madeira (Marítimo e Nacional), 2 equipas do Algarve (Olhanense e Portimonense), 2 equipas de Aveiro (Beira-Mar e Feirense), 4 de Lisboa (Benfica, Sporting, Estoril e Belenenses), 1 de Coimbra (Académica), e do Porto (Porto, Boavista, Leixões, Rio Ave, Paços de Ferreira e Trofense). Tive em conta, os clubes que maior notoriedade tem e que mais adeptos vão ao estádio… mas mesmo assim, é incomportável ter um campeonato tão longo, em que apenas 5 equipas é que conseguem ter médias superiores a 10.000 adeptos por jogo, e em que a gestão danosa da maioria dos clubes, torna a Liga no ciclo vicioso, em que os que trabalham seriamente, são prejudicados pela falta de profissionalismo dos outros clubes, e pela falta de conhecimento de quem gere a Liga.

O futebol em Portugal gere mais de 1% do PIB Português. Se tivermos em conta que nos últimos 12 anos, Portugal esteve em várias finais e meias-finais europeias, que organizamos o euro 2004, etc, que estamos no top 6 do ranking da UEFA, que estamos no Top 10 da qualidade de campeonato, que este ano perspectiva-se que ultrapassemos França no ranking, e vamos alterar porquê? Vamos entrar no modelo competitivo de países com 5 vezes mais população que nós porquê? 

Se o que fazemos, fazemos bem, para que vamos alterar? Para quê, eleger alguém para Presidente da Liga, que nada têm a ver com Futebol nem com Gestão Desportiva, nem inclusive com recursos económicos, e vêm pedir 200 milhões de Euros, pela transmissão televisa da próxima época? Mas o que é que este indivíduo entende afinal?

Mais uma vez, fica provado, que o problema está na “mesquinhice” dos pequeninos, a quererem trepar paredes, quando não trabalham para tal, e que através de favores eleitorais, atingem resultados com fraude, a fugir da verdade desportiva, e a denegrir a imagem conceituada do futebol Português na Europa. 

Em suma, o problema está na má política de gestão, na postura clara de procura de favores, e de conflito de interesses, em vez da potencialização de resultados, na comercialização e inovação, com alterações ponderadas e que possibilitem o crescimento positivo da modalidade. Há que ponderar quando se vota num órgão, quando se elege um director, e como se rege um clube, porque por muito pouco influente que o clube possa ser, estando na Liga de Futebol, está directamente ligado com o crescimento económico do país.

Mesmo que consiga admitir, que haja algum estudo que o alargamento seja viável, gostaria de compreender o porquê, dos mesmos clubes que votaram no actual presidente, recusaram a liguilha, para que não houvesse qualquer despromoção?

Será que estamos a ser bem geridos?

Pedro Sardo Pereira

1 comentário:

  1. Problema de fundo não é só do Desporto, ou da gestão no desporto. Vem da cultura do país. Pensa-se sem nexo, sem recurso a análises para que se faça a melhor escolha e fazem-se então as coisas por conveniência.
    Quanto a esta escolha de aumentar o número de equipas, não faz sentido, concordo com o que escreves. É incomportável ter ainda mais equipas, e isso apenas significar menos média de adeptos.
    Penso se não será uma boa ideia pensar-se numa forma de conseguir vitalizar tanto a liga como alguns clubes, recorrendo a boas estratégias de marketing e de dinamização das pessoas, com as 16 equipas, e depois sim, com uma liga estável, competitiva a todos os níveis e com os jogos na sua maioria a darem gosto de se ver, pensar-se novamente em aumentar o número de equipas participantes.

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